Grafiteiros unem adrenalina e técnica em desenhos pela cidade. Oficinas também dão oportunidade para meninos deixarem pichação.
A reviravolta sofrida pela arte do grafite no Brasil pode ser comparada aos acontecimentos da vida do artista Rui Amaral. Há 24 anos, Rui foi preso enquanto desenhava em um muro num beco abandonado. Nessa época, o grafite era visto como pichação e não como arte urbana.
Passada a discussão e entendida a diferença entre a arte produzida pelos grafiteiros, e o vandalismo provocado por pichadores, os cariocas passaram a conviver muito bem com a cidade mais colorida e ilustrada.
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“Quando fui preso as pessoas não entendiam que o que eu fazia era arte. A ideia do grafite é revitalizar os espaços, dando cor e formas que tenham a cara de cada comunidade”, contou Rui. “Hoje em dia é tudo diferente. Os grafiteiros contam com o apoio de muitas pessoas. O mercado cresceu muito”, acrescentou ele.
O mercado não está apenas favorável para quem trabalha com grafite. A arte é a oportunidade de muitos meninos e adolescentes deixarem as ruas e se tornarem grafiteiros. Essa é a missão do coordenador do núcleo de grafite da Cufa (Central Única das Favelas), Alexandre Ferreira, conhecido como Afa.
“Transformamos aqui o grafite em uma teoria de princípios pedagógicos. É impressionante como, ao conhecer o grafite, os meninos entendem que a pichação não dá barato nenhum”, disse Afa.
As aulas são dadas em oficinas de diversas comunidades. Na oficina da Cidade de Deus, na Zona Oeste da cidade, Matheus Fernandes de 18 anos conta que usava a pichação para se firmar diante dos amigos, mas ao aprender as técnicas do grafite abandonou as letras e formas sem conteúdo e agora investe em arte.
“A pichação é pura adrenalina e reconhecimento dos amigos. Hoje pego a agilidade que aprendi nas ruas com a pichação e aplico nas técnicas do grafite”, contou Matheus.
Além de aulas em comunidades, a Cufa está dando oficinas em presídios do Rio. O projeto “Rebelião Cultural” tem a intenção de tirar o detento da ociosidade.
“Temos que pensar que amanhã os presos estarão aqui fora. Precisamos dar oportunidade de crescimento a eles”, contou Afa.
Intercâmbio
Em uma cidade como o Rio, não faltam inspirações para os grafiteiros. No caso de Chico Silva, coordenador das oficinas de grafite do AfroReggae, o Hip Hop é a sua inspiração quando o assunto são desenhos coloridos. Segundo ele, o grafite é um trabalho que junta técnica com criatividade.
“Eu não queria marcar apenas meu nome, queria desenhar. Juntei o Hip Hop e o desenho e fui pra rua ilustrar paredes e muros”, contou ele.
Tanta dedicação ao grafite chama atenção de artistas de todo o mundo. Como experiência e aprendizagem, Chico já percorreu a Inglaterra e a Índia mostrando seu trabalho e trocando técnicas de grafite com diversos artistas.
“O grafite brasileiro é muito respeitado. Somos comparados ao futebol. Temos arte e visão urbana, isso chama atenção”, disse ele.
Evolução gráfica
O escritório de design de Bruno Bogossian ficou de lado quando a paixão pelo grafite falou mais alto. Desde 1999, quando essa arte ainda estava engatinhando no Rio, Bruno resolveu que era hora de dar vida a lugares abandonados.
“O grafite cresceu muito, e com o esforço de grandes artistas vem o reconhecimento da cidade. A arte de ilustrar muros esquecidos faz com que o Rio fique mais colorido”, disse ele.
Fascinado pelo mundo do grafite, Bruno resolveu transformar a arte dos muros em computação gráfica.
“A computação gráfica exige outro tipo de técnica, mas também é fascinante. São meios diversos de mostrar arte”, disse ele.
Ao contrário de quem largou tudo para fazer do grafite profissão, Hayala Garcia optou por ilustrar muros durante os momentos de folga.
“Continuo envolvido com o grafite, mas agora aplico o que sei em estampas de roupas. É uma forma diferente de ilustrar durante a semana o que pratico nos muros da cidade nas minhas horas de folga. Levo a linguagem da rua para a roupa”, disse ele.

Fonte: G1